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ARTIGOS

Autor: Paula Zarth Padilha
15/09/2016

O mundo paralelo do fazer jornalismo independente

Imagine uma ferramenta online que quando você acessa, abre um mapa similar ao Google Earth ouMaps. Pense numa localização qualquer, o prédio onde você mora por exemplo. Essa ferramenta de pesquisa online permite que você selecione um ponto específico num mapa, como o seu prédio, e em poucos segundos aparecem na sua tela do computador todas as interações online em redes sociais que ocorrem no seu prédio no momento da consulta. E se você clica em qualquer dos ícones, pode verificar qual perfil está interagindo e o que essa pessoa está postando, curtindo, comentando.


Essa ferramenta de pesquisa foi apresentada por Paul Myers, jornalista da rede norte americana BBC e da researchclinic.net, como uma de tantas outras utilizadas atualmente por profissionais da comunicação na busca por mais informações sobre determinada pauta. Ele esteve no Brasil no final de junho, em São Paulo, para palestrar no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O público era formado por estudantes de jornalismo, mas também por profissionais tarimbados da chamada mídia hegemônica comercial. Representantes da TV Globo, de grandes portais de notícias do país, dos jornalões Estadão, Folha de S. Paulo, o Globo. Uma troca fascinante de experiências pelo mundo, da mídia comercial e da independente. Mas não tinha lá nenhuma referência à comunicação sindical ou popular.


Posso citar aqui exemplos que nos levem a concluir que nossa forma de abordagem, de estrutura, de encarar o público-alvo, talvez até de linguagem, se caracterizam defasadas. Em tempos de excesso de informação (de qualidade ou idoneidade questionáveis) que circula pela internet, de facilidade de viabilização de blogs de notícias, de coberturas midiáticas em tempo real (independente de serem jornalísticas), o jornalismo sindical parece não ocupar todos os espaço que surgem de informação espontânea, principalmente nas redes sociais. Continuamos, de certa forma, implorando para que trabalhadores de nossas categorias de representação acessem nosso conteúdo.


Esse mesmo congresso de jornalismo foi encerrado por Bob Garfield, âncora do programa “On the mídia”, também norte-americano, que teve a missão de falar sobre o futuro do “fazer jornalismo”. Ele foi categórico. Não existe mais investimento em propaganda. O jornalismo não se sustenta mais por anunciantes. Podemos procurar inúmeras alternativas (e utilizar várias delas) para tentar a viabilização financeira do produzir informação. Mas para ele, o futuro do jornalismo está noFacebook.Compreendi essa resposta como uma forma barata de viabilização. Pois as pessoas estão nas redes sociais e consomem informações das redes sociais.


A comunicação popular e independente em Curitiba está grosso modo sendo produzida por jornalistas sindicais ou dos movimentos sociais. E de forma voluntária, nas horas vagas. Porque não há verba disponível, ou se existe é restrita nesses espaços. Posso compartilhar de minha experiência e atuação. Sou jornalista sindical. E ter esse vínculo empregatício me permite a militância e o trabalho jornalístico voluntário no site Terra Sem Males, em que atuo como repórter e editora. E também no jornal Brasil de Fato, em que sou colunista com a temática sindical. Também contribuo com reportagens especiais para a revista Ágora, produzida mensalmente pelo Sismuc, o sindicato dos servidores municipais de Curitiba. Podemos atuar em todos esses projetos sem conflitos de interesse, porque eles se complementam, visando o objetivo maior de falar com os trabalhadores e para os trabalhadores. E de disputar a hegemonia midiática, com a aproximação dos movimentos sociais e sindicais ao público comum.


O Terra Sem Males é um projeto que em um ano tem crescido com conteúdo próprio, mas que ninguém investe financeiramente para que a produção de conteúdo continue. Site, jornal impresso temático e força de trabalho são voluntárias, financiadas com verbas salariais próprias da equipe investidas na produção de conteúdo. E existem muitas iniciativas semelhantes que os sindicatos poderiam se apropriar.


É uma conta simples, que poderia fechar: os sindicatos precisam inovar suas ferramentas de comunicação e têm verba para isso. Os comunicadores populares têm ideias originais, vontade de produzir mas são limitados pela falta de verba para financiamento. Uma situação deveria fomentar a outra. Mas isso, de fato, não acontece, ou raramente.


A comunicação sindical pode e deve se render às inovações e fomentar parcerias visando a unificação com os movimentos sociais e demais categorias de trabalhadores. Porque, como dizia Vito Giannotti, os meios de comunicação não vão se democratizar. Nós temos que arregaçar as mangas e fazer os nossos próprios veículos de comunicação. E diria mais: investir em formação, em estruturação, na boa vontade dos jornalistas e comunicadores populares.

Articulista: Paula Zarth Padilha
Paula Zarth Padilha é jornalista do Sindicato dos Bancários de Curitiba e região; repórter e editora do site Terra Sem Males; membro titular do Conselho de Ética do SindijorPR; e colunista do jornal Brasil de Fato Paraná.