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02/04/2014

Não precisamos de uma ditadura para dizer o que é censura

Não precisamos de uma ditadura para dizer o que é censura
Zé Oliveira

Há quem diga que vivemos em um período de liberdades democráticas. Essas considerações geralmente estão relacionadas a uma análise comparativa com um dos períodos mais sombrios da história brasileira e, sem dúvida, se comparados os dois momentos, em seu conjunto, representam extremos.


É sempre importante analisar o que foi a ditadura, que completou no dia 1º de abril, 50 anos de seu início, marcado pelo golpe que culminou com a renúncia do então presidente João Goulart. Um golpe que não foi uma ação militar, simplesmente. Mas um golpe que contou com a articulação e apoio de grandes grupos empresariais internacionais e nacionais, entre eles, boa parte das empresas de comunicação do Brasil.


No livro “A moderna tradição brasileira”, Renato Ortiz mostra que é justamente a partir de 1964 que se acelera no país uma proposta de desenvolvimento desordenado que aprofunda uma série de contradições, dentre as quais a pior é, sem dúvida, a grande desigualdade social. Mas ele também aponta como alguns desses grupos, entre eles a Globo e a Folha de São Paulo, emergem como potencias empresariais, enquanto outras como a extinta TV Excelsior passam a sofrer sanções que resultam em sua bancarrota.


Mais do que um simples pedido de desculpas pelo apoio ao golpe militar, as empresas de comunicação devem deixar de omitir o desserviço que prestaram à sociedade brasileira não apenas no golpe, mas sobretudo na censura interna que resultava na passividade e oficialidade do jornalismo imposto nas redações. Carlos Eduardo Lins e Silva, no livro “Muito além do Jardim Botânico”, por exemplo, cita episódio em que o próprio Roberto Marinho censurou uma matéria jornalística que apontava problemas no governo federal naquele período.


O silêncio para certas informações possibilitou aos militares realizarem as piores barbáries com seres humanos por conta de suas posições políticas e sua divergência ao governo. Vários jornalistas foram perseguidos, torturados e alguns mortos. Os relatos agora começam a aparecer por meio das comissões da verdade e pelo que contam outros jornalistas como é o caso da paranaense Teresa Urban, que infelizmente não está mais entre nós.


Esse é um erro que as empresas de comunicação do país não admitem. Ou justificam sua linha editorial em favor de uma causa que se opõe justamente àqueles a quem diz prestar contas, ou seja, à própria sociedade.


Nos últimos anos, com a mudança do perfil dos profissionais nas redações, cada vez mais jovens, o que se observa é uma imposição ideológica não mais governamental, ainda que o governo militar agia como a mão-de-ferro das corporações internacionais e nacionais. Basta verificar o surgimento de grandes empresas nacionais e multinacionais no Brasil e seus lucros astronômicos no período. A imposição agora é mais implícita, sob um controle direto da mão invisível do mercado ou em favor de políticos que representam elites e que se utilizam da máquina pública financiando veículos de comunicação e determinando a linha editorial.


O que manda nas redações é a audiência, aquela que, como diz Noam Chomski, deve ser o produto a ser vendido aos patrocinadores, anunciantes, sejam eles privados ou governamentais. Os mecanismos de coação ao jornalismo, portanto, aparecem na tentativa de domesticar os profissionais por meio de premiações veladas, políticas de participação no lucro, assédio moral e demissões dos mais críticos e questionadores. É a partir desta realidade que o jornalista calcula suas atividades na redação, considerando não o interesse público, mas a audiência que determinado fato pode gerar, levando ao extremo o conceito de “valor-notícia”, definidos por Nelson Traquina, aliada a um conteúdo que não fira os interesses dos seus patrocinadores.


Nesse sentido, a censura se impõe pelos interesses comerciais. São os donos do dinheiro que determinam as pautas, o conteúdo das matérias, é, portanto, quem assume verdadeiramente o posto de “gatekeeper” do jornalismo atual. E os proprietários dos meios de comunicação, como participantes dessa mesma elite, não hesitam em atender aos pedidos de seus parceiros. Quantos jornalistas já tiveram material censurado, pautas “recomendadas”, entre outras ações que interferiram diretamente no interesse público? Talvez nem todos digam que sim, mas certamente uma grande maioria dirá que conhece um caso que ocorreu com um colega.


Pierre Bourdieu fala de uma “censura invisível”, em “Sobre a televisão”, a qual se impõe por meio de uma distorção do papel do jornalismo na sociedade atual. Ela se impõe de forma velada, sem que o próprio jornalista tenha consciência de sua existência. Está no pensar a pauta, na escolha das palavras, na estrutura do texto, enfim, na rotina de construção da notícia. Nós, jornalistas, estamos condicionados a pensar de uma maneira privada, individualista, competitiva, que exclui qualquer possibilidade de imaginar o coletivo. Não é à toa que é difícil mobilizar jornalista ou aumentar os níveis de sindicalização.


Não precisamos de uma ditadura para dizer o que é censura. O jornalismo em geral está condicionado a uma censura de mercado ou de governantes onde vira notícia aquilo que tem relação com o lucro. Mais do que a situação do jornalista que já vive um momento complicado na profissão (difícil saber um período bom), tendo em vista as condições de vida, perspectiva de carreira e de valorização, é preciso pensar na responsabilidade do jornalismo. E não se trata da “responsabilidade social” de fachada, pintada pelas estratégias de marketing das empresas, mas das consequências que o trabalho jornalístico tem para a vida das pessoas, entendendo o jornalismo como atividade que se constitui como gênero do conhecimento, conforme definido por Adelmo Genro Filho.


Jornalismo é uma atividade de caráter público e precisa ser tratada como tal. Isso pressupõe não apenas a pseudo liberdade editorial expostas pelos veículos de comunicação, mas o fim das sanções nas redações, das demissões, da meritocracia e o reordenamento do modelo de comunicação do país que deve passar a fortalecer o campo público, incluindo a redução dos valores repassados pelo governo à mídia privada e o incremento de receitas à mídia pública (tanto estatal como de iniciativas não governamentais), aliada a uma política que garanta o controle social, a gestão democrática com participação de jornalistas e a valorização destes profissionais por meio de melhores salários, estabilidade no emprego e perspectiva de carreira. Jornalismo de verdade se faz com liberdade, tendo como princípio o interesse público.

Fonte:Guilherme Carvalo é presidente do SindijorPR e professor de jornalismo do Uninter