Você se arrepende de ter cursado jornalismo?

Um estudo de 2025 elencou os 9 cursos com maior nível de arrependimento entre os profissionais formados. O jornalismo ficou em primeiro lugar, com 87% de pessoas decepcionadas com a profissão.

Algo talvez curioso para um curso que, há 18 anos, foi o mais disputado no vestibular da Fuvest.

E o percentual de arrependidos se reflete nas inúmeras reclamações que vejo de colegas de profissão nas redes sociais sobre as condições do mercado de trabalho.

Que fique claro: isso não é um julgamento. Acho o arrependimento justo. Quem é que não sonha em fazer uma faculdade e ter um emprego digno depois? Em que tenha, pelo menos, algum tempo livre para viver, alguma espécie de ascensão profissional e um salário que consiga pagar as contas sem ter que trabalhar em dois, três lugares diferentes?

Sem contar que, pela importância da profissão para a sociedade, o mínimo que se espera é um pouco de valorização. E isso está longe de ser um fato.

Por isso, tantas pessoas acabam saindo (ou mesmo nem conseguindo entrar) em uma redação. Vão para o marketing, publicidade, trocam completamente de área ou cursam uma segunda graduação.

Escolhendo ou não continuar no jornalismo, nenhum dos caminhos é simples ou fácil. Demanda tempo, esforço, novas formações, dinheiro.

No meu caso, um mestrado. E, apesar de LITERALMENTE dar aula de jornalismo, para algumas pessoas eu sequer trabalho na área. Ou seja, fui uma das que fugiram da profissão. Então, vou considerar dessa forma.

O detalhe é que estou nos 13% que acham que o jornalismo valeu a pena. Nunca me arrependi de ter feito o curso. Se eu precisasse escolher cem vezes uma faculdade, escolheria cem vezes jornalismo.

O mesmo posso dizer do meu mestrado. Algumas pessoas me perguntam se eu o fiz porque sonhava em ser professora ou queria o título para prestar concurso público. Tenho uma única resposta: eu só queria pesquisar esse tema.

Para mim, jornalismo e mestrado representaram parte de um mesmo sonho, e que levaram a muitos outros sonhos. Entrevistei um monte de gente incrível: cantores, políticos, escritores, cineastas, pessoas que eu admirava, pessoas que eu odiava. Gente que nunca sonhei ver de perto. Viajei, fiz amigos, casei. Mergulhei no universo que mais amo: o futebol e as torcidas.

Conheci pessoas comuns que mudaram minha forma de ver o mundo. Gente que faz um trabalho incrível, que luta, que transforma, que reinventa os lugares e comunidades em que vivem. Que deram sentido a tudo aquilo que aprendi como jornalista. Que me agradeceram por ampliar o alcance das vozes, ideias e reivindicações.

Que fique claro: não estou romantizando o sofrimento alheio, nem dizendo que você deve amar ser jornalista apesar de tudo. Como eu disse, acho justo o arrependimento. Essa é apenas uma visão particular, um sentimento meu.

E, mesmo “não trabalhando na área” ou ganhando menos do que gostaria, talvez o problema esteja na forma como vemos o sucesso. Bell hooks, em Ensinando pensamento crítico, reflete sobre isso: “Nós que ficamos, que continuamos a trabalhar na educação para a prática de liberdade, assistimos em primeira mão aos modos como a educação democrática está sendo enfraquecida, à medida que os interesses dos grandes negócios e do capitalismo corporativo incentivam os estudantes a olhar para a educação somente como meio de alcançar sucesso material. Esse pensamento torna a aquisição de informação mais importante que a obtenção de conhecimento ou o aprendizado do pensamento crítico.”

Amo quem eu sou, amo os trabalhos que fiz e faço. E eu não seria quem sou se não fosse jornalista.

O problema das altas taxas de arrependimento está no jornalismo, sim. Todo mundo merece uma profissão que ofereça possibilidades, que garanta saúde mental, financeira e emocional, dignidade. Por isso, entendo completamente aqueles que desistiram ou que pensam em desistir. Mas, mesmo indo embora da profissão em si, indo embora das redações, olhar com mais carinho para aquilo que valeu a pena, para a pessoa em que você se transformou, para aquilo que fez de relevante, para quem você conseguiu ajudar, talvez ajude até a lidar com o fato de que você precisa mudar de rumo — e está tudo bem.

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Larissa Bezerra é jornalista, professora, especialista em Jornalismo Esportivo, mestre em Sociedade e Desenvolvimento e pesquisadora de futebol e torcidas.
Autor: Larissa Bezerra

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