Maio é um mês de luta por melhores condições de trabalho e valorização profissional. Curiosamente, jornalistas nem sempre se dão conta de que esta luta também é nossa. Talvez porque a nossa categoria tenha certa dificuldade em se reconhecer como classe trabalhadora.
É bem verdade que houve um tempo em que ser jornalista carregava certo glamour que, para muitos, era sinônimo de intelectualidade e também de poder, o que fazia com que alguns profissionais se sentissem acima dos embates trabalhistas.
Porém, mais que glamour, o jornalismo possui papel institucional essencial no Estado Democrático de Direito, sendo responsável por mediar a relação entre fatos e sociedade, com base em critérios técnicos como apuração, verificação, contextualização e responsabilidade ética.
A desregulamentação da profissão, somada ao avanço da internet, das redes sociais e, mais recentemente, da Inteligência Artificial, mostra que, a cada dia, a categoria está mais precarizada, sobrecarregada e exposta a riscos que podem comprometer a integridade física e emocional dos profissionais da notícia, colocando em risco o próprio jornalismo.
Desde 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu derrubar a exigência do diploma para o exercício da profissão, a precarização vem avançando a passos largos, e direitos trabalhistas conquistados há décadas estão cada dia mais ameaçados.
A precarização e a sobrecarga ficam escancaradas na figura do “videorrepórter”, quando um único profissional entrevista, capta imagens, edita e, em geral, faz entradas ao vivo. Trabalho que, até algum tempo atrás, era feito por dois ou até três profissionais, hoje é realizado por apenas uma pessoa. E, na maioria dos casos, sem qualquer adicional salarial.
Outro problema associado a essa realidade é a segurança dos profissionais. Sozinhos e carregando equipamentos, eles estão muito mais expostos à violência e aos perigos do dia a dia da profissão em um país classificado como um dos mais perigosos da América Latina para exercer o jornalismo.
Por isso, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e os sindicatos a ela filiados defendem uma agenda ampla de defesa da profissão, que inclui a luta pela atualização da regulamentação profissional, a valorização da formação específica e o combate à precarização das relações de trabalho. Essas pautas vêm sendo defendidas em mobilizações nacionais, como o Ocupa Brasília, e na atuação permanente junto aos poderes da República.
Paralelamente, o Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR) está mobilizado para garantir a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). O principal item da pauta de reivindicações da categoria, representada pelo SindijorPR e pelo Sindijor Norte PR, é o reajuste que eleva o piso salarial de R$ 4,6 mil para R$ 5,2 mil, valor que considera a inflação acumulada e as perdas registradas desde 2020.
Não é de hoje que o modelo neoliberal de produção jornalística vem transformando jornalistas em “empreendedores de si mesmos”, sem direitos, sem estabilidade e, muitas vezes, sem condições mínimas de apuração. E um jornalista precarizado é um jornalista mais vulnerável a pressões, à censura, à autocensura e às fake news. É também um profissional impedido de exercer plenamente sua função social: garantir o direito à informação.
A Fenaj e os sindicatos, que têm como princípio a defesa da categoria e do jornalismo, vêm atuando firmemente nesse campo, com campanhas pela valorização profissional, pela negociação coletiva e pela criação de protocolos de proteção a jornalistas, especialmente em contextos de violência política e de gênero.
Mais recentemente, a Fenaj e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ingressaram no STF com uma ação direta de inconstitucionalidade questionando a Lei nº 15.325/2026, que regula a profissão de multimídia, por seus impactos sobre a liberdade de expressão, a atividade jornalística e a organização sindical, além de violar dispositivos constitucionais relacionados à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa e ao direito à informação.
A lei, sancionada em janeiro pelo Governo Federal, amplia as competências de profissionais de mídias digitais, criando uma categoria multifuncional que sobrepõe várias atividades típicas do jornalismo. Trata-se de mais um ataque direto à profissão e à organização da categoria, na medida em que enfraquece mecanismos de verificação, credibilidade e confiabilidade das notícias.
Essas não são apenas pautas corporativas. São pautas de democracia. Porque, sem jornalistas livres, protegidos e valorizados, não há sociedade informada. E, sem sociedade informada, não há cidadania.
Mas o enfrentamento de todas essas questões começa também dentro das redações, com a mobilização da categoria. Por isso, é fundamental que jornalistas se percebam como classe trabalhadora que, unida, se fortalece.


