Lutando com Jornalismo

O tempo parece ser sempre um fator delicado para qualquer pessoa, na vida doméstica ou nas profissões. Aos não profissionais de imprensa o significado do dia a dia laboral difere bastante dos “operários das letras”, como diria um colega que permanece na memória. Nosso trabalho contém luta suada e frequentemente com lágrimas, até sangue, infelizmente. Por vários motivos, num 1º de maio, o desafio diário de vencer os ponteiros minuto a minuto faz refletir porque ainda insistimos em ser jornalistas. 

 

Não é exatamente uma insistência, nem obrigatoriamente falta de opção. Falo de vencer o tempo-relógio freneticamente, mas incluam aí como parte da luta pautas (sejam as bacanas, as complicadas, as “recomendadas”…), entrevistados, pescoções de feriados e fins de semana, confusões inevitáveis com colegas e chefes, como isso repercute em casa (quando a casa ainda resiste bravamente), passaralhos e, não menos – porque não – patrões, que afinal fazem parte do campo, como diria Bourdieu.

 

Sem pretender usar uma peneira para olhar o sol da realidade experimentada, não é de hoje que jorram estudos, pesquisas e livros sobre a saúde do jornalista. Vivemos doentes física e psicologicamente. Quando muito, nos equilibramos. Sim, talvez não seja “privilégio” desta tribo. Mas tenho certeza que se há uma distribuição do estresse e doenças ocupacionais pelas profissões, fomos bem aquinhoados e nos colocaram na fila mais vezes para ampliar o problema. Os professores também estão entre os primeiros lugares desse campeonato ao inverso. Sou os dois. 

 

Existe a parte boa e nobre. A sensação de ser elo importante em um processo civilizatório, que não termina nunca, como temos melhor percebido nos últimos 20 anos, creio. Violência social, corrupção política e empresarial, racismo estrutural, misoginia arraigada, discriminações de todos os tipos, cinismos de figuras públicas sobre temas urgentes, apatia seletiva de quem deveria agir em defesa da sociedade, as muitas faces obscuras e tão evidentes do que lidamos, sempre de olho no celular.

 

Compreendo, por outro lado, esse passar das horas como o que nos espreme inicialmente, mas também dá aquele gosto de premência, da necessidade de tomar decisões em minutos, até segundos. Uma habilidade desenvolvida na experiência diária. Como diriam meus alunos, algo “pra levar pra vida”. Uma espécie de super-poder que só Clark Kent e Peninha (aquele de A Patada) aparentemente têm. Só que nós também. 

 

São desafios inevitáveis e de certa maneira até desejáveis, do ponto de vista dos objetivos que o jornalismo nos propõe. Creio que todos, desde o início, têm essa pretensão idealista. Um senso simples e direto de indignação diante de situações óbvias. Se permaneceram assim, passados algumas décadas no corre-corre de redações e assessorias, seria o dilema. Pessoalmente, acho mesmo um falso dilema. Uma questão de princípios que nos move e não se desmancha no ar nem na poeira do tempo. 

 

Esses dias, li texto da companheira de diretoria do Sindijor, Lea Okseanberg, sobre o fim da escala 6 x 1. Perfeita. Nós também precisamos de tempo. A notícia não espera? Não mesmo, mas para essas coberturas de férias e folgas temos inúmeros colegas de muita experiência ou mesmo mais novos, saindo das faculdades com a sede natural de quem quer viver a pauleira (perdão) das aventuras de reportagem, seja nas redações ou nas assessorias (sim, assessorias são um bom espaço de trabalho, mas foi-se a época em que não eram sinônimo de pauleira).  

 

Um detalhe importante: procurando um produtor de cachaça em Morretes para uma entrevista, há tempos, perguntei sobre ele a uma moradora local e ela respondeu: “ah, aquele que luta com cachaça? Está logo ali, depois da curva…”. Achei curiosa, mas extremamente original e coerente a referência dela ao “viver de…”, enfim , ao trabalho dele.  

 

Pois é, ali depois da curva, também estamos nós, trabalhando como jornalistas por um país melhor, mais justo, mais democrático, cidadão – sem jeitinhos, machismo, racismo –, mais culto, alegre e feliz. É por isso que a gente segue lutando com Jornalismo.

 

Emerson Castro é jornalista e ceramista 

Autor: Emerson Castro

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