Jornalista, docente, EU SOU MULHER. Apesar da história

Durante a Guerra Fria, as ditaduras do leste ficaram conhecidas como “ditaduras comunistas”, sendo que boa parte delas era militar; e as do oeste, como “ditaduras militares”, sendo todas capitalistas – o capitalismo saiu ileso do período. Tenho investigado o tema para um artigo. As sete mestrandas que oriento estudam o cinema da guerra fria hoje, o negro e a questão agrária em novela da Globo, comunicação pública com mídias sociais, educação na imagem de Sebastião Salgado, discurso religioso em disputa, como dialética do tempo; aliás, o que se estende à graduação, com um estudante contrastando os papas Francisco e João Paulo II e outra sobre a comunicação em escola estadual paranaense. Pensando no Paraná, no Brasil e no mundo; no que espera a Universidade Pública brasileira para os próximos anos; na função administrativa de chefia que assumi ano passado e devo levar até 2027. Como aproveitar meu tempo para fazer campanha neste ano eleitoral?

De repente, uma mensagem, com um convite para que eu escrevesse um artigo sobre ser “mulher jornalista professora”.

Parei.

O jornalismo, profissão que comecei na juventude, e a docência, que entrou bem mais tarde, têm caminhado juntos na minha vida de UTFPR – a professora que, junto a isso, assumiu, por duas vezes, Assessoria de Comunicação do campus Curitiba, foi diretora de Comunicação do sindicato de professores e, por fim, diretora de Comunicação de toda a rede que compõe a Universidade. Sou jornalista, uma profissional competente, ética, dedicada, bem formada pela Universidade Federal do Paraná, onde entrei em 1985, juntamente com a democracia!!! Tornei-me docente há pouco mais de 20 anos, tenho aprendido desde então e conquistado respeito e até admiração pela atuação acadêmica. Não há entraves para falar sobre isso.

Mas o “mulher” me fez parar.

Nascida em 1967, no dia de Rosa de Luxemburgo e três anos após o golpe militar, me sentia contraditória e cheia de perguntas num período em que não se questionava muita coisa. Num período em que não se questionava a dualidade bonita OU inteligente.

– Você vai ser p*** ou sapatão? Perguntou um jornalista quando soube que eu estudava jornalismo.
– Ainda não sei, entrei este ano e tenho tempo pra escolher.

Era a época em que, quando uma nova repórter surgia na televisão, se ouvia a pergunta, em meio a gargalhadas, em ambientes públicos: “Essa deve ter passado pelo teste do sofá”.

Importante: maquiagem amena. Importante: não falar tão fino, “pra não parecer mulherzinha”, e nem grosso, “porque parece mulhé macho”.

“Como assim, não querer trabalhar na televisão. Você é bonita!” Ouvi por anos de pessoas bem-intencionadas. Alguns diziam bonitinha.

Casei cedo. Comecei a fazer teatro nos anos 1990. “Seu marido deixa? Que bacana ele, né”, ouvi de várias mulheres. “Vou terminar as aulas mais cedo porque temos duas moças casadas na sala, elas têm que fazer almoço”, explicou um professor. Meu marido sempre foi o cozinheiro da casa, mas achei melhor não comentar.

Quando entrei no muay thay – acho melhor não comentar.

O tempo passou. As décadas. O milênio. Me divorciei em 2008. Homens e mulheres me interpelaram com coisas do tipo “Mas ele deixava você trabalhar, estudar (eu estava no doutorado, na época), fazer teatro, sair com seus colegas”. “Ele que cozinhavaaaaa!”. “Um marido tão bom”.

O mais sábio era esquecer as diferenças e imitar o que se fazia – aliás, se fez desde sempre, deveria estar certo. Pra que teimar em ser mulher, se o mundo é dos homens?

E uma hora, você para de pensar nisso.

Mas hoje, olhei a estrada por que passei, e pela qual cheguei aqui. Com a encomenda feita – mulher jornalista professora, parei e escrevi: EU SOU MULHER.

Sou jornalista. Sou docente. Sou escritora, atriz, diretora e pesquisadora de teatro. Sou chefe do meu departamento.

E SOU MULHER.

A mulher mãe do Pedro, a quem eu amo e dou a vida. A vó da Lívia, que tá chegando agora em abril. Sou mulher que usa lápis de olho e batom. Que corta o cabelo em casa (amarro com elástico e taco a tesoura) e adoro meu cabelo cheio de pontas. Sou mulher que cozinha terrivelmente e come o que faz (é saudável, normalmente). Que gosta de usar vestido curto e roupas confortáveis. Misturar cores. Rir pra morador de rua que me chama de linda. Amo café – preto, forte, sem açúcar; futebol, torço pro São Paulo; todas as artes que intentam a transformação da sociedade em algo mais justo.

Sou mulher que fala alto, gosta de palavrões – não pra ofender, mas expressar um eu que eu tenho; mulher que responde na lata; que, seguindo o cristianismo, foi determinada como esquerda já bem nova, e hoje, já velha, recebe alegre a marca que é conferida aos que buscam o altruísmo e a solidariedade. Mulher que teima que é velha quando dizem Não fala isso. Sou mulher que ri e canta alto pelas ruas das cidades por que caminha.

Sou mulher caminhante. Mais do que os oito quilômetros de casa ao trabalho, sou mulher que tem aprendido no caminhar de ser mulher. Aquela que se alegra ao entender que tem sete jovens orientandas de mestrado, a quem ninguém fez perguntas indecorosas pelas escolhas de curso ou tema de pesquisa. Nelas eu vejo que, assim como eu, o mundo é caminhante e, em alguns aspectos, esse caminhante lento traz conquistas de lutas eternas.

Sou mulher e sei que meus erros não serão perdoados. E que não estou sozinha. Como queridinhas do capitalismo, somos as preferidas para as vice-presidências, vice-diretorias, vice-salários, chefias de setores controlados ou de segundo escalão, gerentes de diferentes instâncias. E para chegar onde chegamos precisamos fazer muito mais e errar muito menos.

Assim, sou mulher e, quando for má, serei a pior; for sensível, serei a fraca; for implacável, serei a descontrolada; for indignada, serei a chata. For incomum, serei anormal.

Mas sou mulher e estou aqui para continuar lutando contra os retrocessos. Não se pode voltar aos desrespeitos superados. E lutando para que continuemos as caminhadas pelos respeitos que ainda não conquistamos.

Sou jornalista e docente, escolhas que fiz e de que não me arrependo.

Sou mulher. Não trocaria por nada essa situação.

Maurini de Souza
Jornalista, teatróloga, professora doutora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná

Autor: Maurini de Souza

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