A “celebração” do dia nacional da e do jornalista em 07 de abril, em memória de Líbero Badaró, faz com que o mês seja marcado por ações alusivas à atividade profissional. Em 2026, além da agenda de atividades organizada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), por ocasião da 5ª edição do Ocupa Brasília, outros destaques foram o lançamento pelo governo federal do protocolo nacional de Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais e a ação civil pública ajuizada pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e outras organizações para cobrar a responsabilidade do Estado brasileiro quanto ao uso da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) para monitorar ilegalmente jornalistas no governo Bolsonaro.
Ainda em abril, na semana que passou, o jornalismo brasileiro testemunhou, desorientado e atônito, a morte de uma equipe de reportagem da Band Minas em um grave acidente na BR-381, na região metropolitana de Belo Horizonte. O repórter cinematográfico Rodrigo Lapa, 49, morreu no local. A repórter Alice Ribeiro, 35, chegou a ser levada para um hospital em Belo Horizonte (MG), mas teve diagnóstico de morte encefálica confirmado e não resistiu. O que se sabe sobre o acidente, que ainda está sendo investigado, é que o carro de reportagem bateu de frente contra um caminhão em um trecho crítico da estrada e que a equipe foi até a rodovia justamente para produzir uma reportagem sobre a necessidade de obras para aumentar a segurança na BR-381.
Em nota, além de lamentar as mortes dos profissionais, a FENAJ registrou que o grave acidente que matou a equipe de jornalismo na Band Minas também expõe os riscos da multifunção e do aprofundamento da precarização no jornalismo. A Federação compartilhou a manifestação em seu perfil oficial no Instagram, recebendo mais de 350 comentários desde a publicação. Entre as postagens, pululam relatos a respeito de outros profissionais de jornalismo que também morreram em circunstâncias semelhantes, além de uma ampla manifestação de descontentamento quanto às condições de trabalho no jornalismo atualmente.
Na esteira da precarização estrutural do jornalismo brasileiro (Nicoletti, 2019) (Lima et al., 2022), a multifuncionalidade caiu nas graças do patronato de mídia no país. Enquanto os lucros se mantêm e alcançam novos contornos, os postos profissionais (especialmente com direitos reconhecidos) foram reduzidos drasticamente em 21,3% em menos de uma década e o cotidiano de trabalho para quem sobrevive do jornalismo vem se tornando mais desafiador, arriscado e a cada dia compensa menos no binômio necessidade x reconhecimento.
Se há 30 ou 20 anos atrás as equipes de jornalismo de televisão costumavam ser “completas”, com motorista, auxiliar técnico, repórter cinematográfico e repórter, atualmente o que se vê é uma simbiose entre o exacerbamento da multifuncionalidade e a precarização. Nos casos “melhores”, a ‘dupla’ trabalha com carteira assinada, o que assegura proteção em caso de adoecimento ou acidente de trabalho, dispositivos e veículo de reportagem em boas condições, mas que não eximem o repórter cinematográfico de se desdobrar para cuidar do equipamento (caro e não raras vezes pesado), se preocupar com a qualidade das imagens captadas, enquanto também tenta sobreviver em meio ao trânsito.
Nos casos ‘piorados’, a bola da vez e que vem se proliferando pelo país afora é a contratação de ‘euquipes’ de videorrepórteres (Olegário, 2023). Aqui, para ser contratada, a pessoa jornalista precisa obrigatoriamente ter carteira de motorista. Isso porque ela vai precisar dirigir, montar, desmontar e carregar equipamentos, apurar informações, fazer a captação de imagens e entrevistas, se enquadrar bem no vídeo, já que também será responsável por captar a própria imagem (muitas vezes transmitida ao vivo), além de, em várias situações, ainda ter que editar os materiais produzidos.
Com muita sorte, essa pessoa ainda terá registro em carteira, com acesso a direitos trabalhistas básicos. Em outros casos, será contratada como pessoa jurídica (PJ) ou microempreendedor individual (MEI), com contratos pífios e que em nada resguardam as e os jornalistas. Se adoecer ou se ‘perder’ algum equipamento necessário ao trabalho e à própria subsistência, o problema é do jornalista, uma vez que a máxima é a divisão dos custos, sem socialização de lucros. Cenário que, infelizmente, não afeta somente profissionais do telejornalismo, já que graças às novas tecnologias, quem trabalha em emissoras de rádio, jornais, portais noticiosos e até mesmo em assessorias de imprensa também, frequentemente, é estimulado a ‘performar’ em entradas ao vivo, enquanto se desdobra nas demais funções – conforme já atesta a pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro (Lima et al., 2022). Em outras palavras, enquanto a tecnologia é de ponta, as práticas remontam ao século 19, em um claro retrocesso.
A redução de custos para os empregadores, assegurada pela imposição da multifuncionalidade que, por óbvio, não vem acompanhada de multissalários (Lima et al., 2022) para jornalistas, também se desvela em outras camadas de riscos profissionais. Fora o perigo imediato, que além de acidentes de trânsito já contou no caso brasileiro com assaltos, furtos e tiroteios – cuja escala de risco se multiplica e complexifica quando um jornalista trabalha sozinho, tendo como ‘escudo’ somente um celular – o adoecimento decorrente das longas jornadas de trabalho sob pressão, com baixos salários e variadas formas de assédio, já alcança níveis que justificariam a ampliação da preocupação pública com a questão.
Direito à informação sob risco
O direito à informação, reconhecido mundialmente como fundamental à cidadania, é assegurado na Constituição Federal de 1988. Este prevê que a garantia do texto constitucional se ramifica em mais de uma dimensão: o direito de informar, o direito de acessar às informações necessárias ao cumprimento da legislação e o direito de ser informado. No entanto, se as e os principais agentes da manutenção do fluxo informacional necessário ao exercício cidadão e à manutenção da democracia (Rios, 2021) trabalham mediante condições tão dramáticas quanto as relatadas de forma sucinta aqui, como esse cenário estará afetando a sociedade?
Retomamos aqui os resultados da pesquisa já citada, Perfil do Jornalista Brasileiro (Lima et al., 2022), que revela aspectos preocupantes da questão. Quanto questionados sobre o que impede o exercício ético do jornalismo, 64,3% dos mais de sete mil respondentes indicaram como principal empecilho a pressão de anunciantes, patrões, governos ou outros, seguidos de 38,4% que apontaram a sobrecarga de trabalho e falta de tempo como principais entraves.
Especificamente sobre riscos profissionais relacionados ao exercício pleno do jornalismo, 27,1% das pessoas que responderam à pesquisa afirmaram que já sofreram vigilância ou monitoramento digital por superiores hierárquicos; 17,8% realizaram alguma atividade profissional mediante algum tipo de coação; e 35% deixaram de cumprir alguma tarefa jornalística por receio de sofrer retaliação. Outros conjuntos de dados também revelam um cenário que vai do esgotamento profissional (Barros et al, 2023) ao sofrimento ético (Nicoletti; Fígaro, 2023).
Se jornalistas não estão minimamente seguros para informar, quem perde é a sociedade. Se cada vez mais profissionais acabam adoecendo em meio a escalas desumanas de trabalho, com salários reduzidos e múltiplos riscos, a informação que deixa de ser apurada também não chega para as pessoas que mais precisam dela.
Em contrapartida ao cenário denunciado pelo movimento sindical de jornalistas no Brasil, o Estado brasileiro caminha a passos trôpegos quanto à proteção da categoria. É bem verdade que o protocolo nacional de Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais é uma necessidade e acena com um compromisso pelo direito à informação. Mas também é igualmente verdadeiro afirmar que andamos muitas léguas para trás com a sanção da recente da lei do Multimídia, que abre caminho para aprofundar ainda mais a precarização na mídia, o que afeta a atividade jornalística e, por conseguinte, a sociedade. Somado a isso, ainda engatinhamos quanto à regulação das plataformas e ainda nem triscamos o necessário debate sobre o impacto do recurso à inteligência artificial no jornalismo.
Sem um pacto social amplo e responsável pelo amparo ao jornalismo, no interesse do direito à informação e da democracia, infelizmente, choraremos outros acontecimentos trágicos. Alguns pessoais, outros sociais e que também se expressam na abertura de caminho para a ascensão de governos autoritários e sem compromissos humanos básicos. Nem tudo pode ser sepultado sob a pretensa primazia do lucro acima da vida, nem tampouco o livre acesso às redes sociais assegura o fluxo de informações verificadas necessário à vida civilizada. O triste é perceber que na autofagia do jornalismo de mercado, mesmo as nossas múltiplas dores e angústias alimentam o sistema. Sem estimular debates sérios e medidas concretas, nossas perdas ainda se convertem em mais lucro sob a máscara de notícias que chocam, mas não mobilizam. Até quando?
Aline de Oliveira Rios
Doutoranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS.
Referências
BARROS, Janaina Visibeli; NICOLETTI, Janara; LIMA, Samuel Pantoja (orgs.). O Trabalho de Jornalistas no Brasil: Desigualdades, identidades e precariedades. Florianópolis: Editora Insular, 2023.
LIMA, Samuel Pantoja; MICK, Jacques; NICOLETTI, Janara (coord.). Perfil do jornalista brasileiro 2021: características sociodemográficas, políticas, de saúde e do trabalho. Florianópolis: Quorum Comunicação, 2022. Disponível em: https://perfildojornalista.paginas.ufsc.br/files/2022/06/RelatorioPesquisaPerfilJornalistas2022 x2.pdf. Acesso em: 12 Abr. 2026.
NICOLETTI, Janara. Reflexos da precarização do trabalho dos jornalistas sobre a qualidade da informação: proposta de um modelo de análise. 2019. Tese (Doutorado em Jornalismo) – Programa de Pós-Graduação em Jornalismo, Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/215446/PJOR0140-T.pdf?sequence=-1&isAllowed=y. Acesso em: 21 abr. 2025.
OLEGÁRIO, Leandro. Telejornalista multifuncional: o videorrepórter em ação. In: PEREIRA, Ariane; MELLO, Edna; COUTINHO, Iluska (Org.). Telejornalismo em mutação: Rupturas e permanências. Florianópolis: Editora Insular, 2023. Disponível em: https://insular.com.br/produto/telejornalismo-em-mutacao-rupturas-e-permanencias/. Acesso em: 15 abr. 2026.
RIOS, Aline Oliveira. Violência contra jornalistas: características e manifestações a partir dos relatórios da FENAJ no período 2012 – 2020. 2021. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Universidade Estadual de Ponta Grossa. Ponta Grossa. 2021. Disponível em: https://tede2.uepg.br/jspui/handle/prefix/3590. Acesso em: 15 Abr. 2026.
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