


Lançado recentemente, o livro-reportagem Contaminação, doenças e assassinatos: Meio século de garimpo na Floresta Amazônica e os danos causados às TIs Munduruku, Yanomami, Waiãpi e Kayapóé um trabalho jornalístico que apresenta os resultados de pesquisas de campo realizadas por médicos e outros profissionais que denunciam a falta de recursos, de infraestrutura em serviços de saúde e de atenção básica aos povos indígenas e outras comunidades de regiões onde há extração mineral.A contaminação pormercúrio é cumulativa e percebida quando as doenças surgem. Não há cura.
A degradação ambiental e a poluição das águas são contabilizadas em prejuízos equivalentes a bilhões e bilhões de reais. Produz vítimas invisíveis, abandonadas entre os rejeitos deixados pela extração do ouro, outros minérios e pedras preciosas em áreas antes intocadas da Floresta Amazônica. São indígenas, ribeirinhos, desempregados que se tornam garimpeiros e populações de vilarejos e cidades localizadas próximas aos garimpos e às instalações de empresas mineradoras. Milhares de criaturas anônimas, apenas números em pesquisas e estatísticas que crescem a cada ano.
Além das invasões de terras indígenas e unidades de conservação, as vidas desses brasileiros são marcadas por assassinatos, ameaças às mulheres e crianças, venda ilegal de mercúrio em cidades próximas aos garimpos, tráfego irregular de aeronaves, construção de pistas de pouso clandestinas e tráfico de minérios raros. Grande quantidade de ouro é contrabandeada, principalmente, pela fronteira com a Guiana Francesa. Notas fiscais ilegais são usadas para comercialização de ouro e outros minérios, no Brasil e no exterior. Os crimes são denunciados e investigados, mas a violência e a impunidade aumentam. Há sempre a expectativa de que amanhã tudo sempre será pior do que hoje.
As vítimas invisíveis dessa atividade habitam a floresta destruída, e usam a água de rios e igarapés onde peixes contaminados se reproduzem e servem como alimento. Ninguém sabe quantas são, não existem números oficiais sobre essa população. Sabe-se que são mulheres – grávidas ou amamentando -, crianças, jovens e adultos. Pessoas de todas as idades estão doentes, crianças nascem com graves deficiências. São constantes as operações policiais, processos e ações judiciais contra a extração ilegal de ouro. E, apesar disso, é cada vez maior a destruição da saúde e do futuro de seres humanos que nasceram ou vivem sobre um dos solos mais ricos da Terra.
Arlete Bonelli – Jornalista dedicada, há mais de três décadas, às reportagens sobre meio ambiente e povos indígenas, em áreas dos biomas Floresta Amazônica e Cerrado.Editora do livro-reportagem Amazônia – Verdades e Mentiras (IUCF/Manaus – 1989).


