Pela primeira vez um presidente eleito pelo povo é deposto através de versões da sua oposição política e não pelos fatos que, normalmente, são analisados e julgados conforma manda a constitucionalidade. Diversas e repetidas versões podem ser entendidas e várias vertentes podem argumentar a respeito do que acontece em nosso país vizinho. A principal interrogação que surge desde a queda do presidente Fernando Lugo é: como o principal político de um país é deposto sem a adesão do seu povo?
Argumenta-se que todo o processo de destituição do poder de Lugo veio por mecanismos legais, com respeito às normas jurídicas do partido vizinho, por outro lado, nunca foi visto um processo jurídico em que as decisões foram tomadas de forma tão rápida, cerca de 30 horas marcaram a trajetória de queda do ex-padre que quebrou a hegemonia do Partido Colorado (direita desde seu surgimento em 1887).
“A situação de expectativa gerada pela decisão dos legisladores de submeter o presidente Fernando Lugo a juízo político foi, finalmente, resolvida de um modo ordenado, pacífico e respeitoso da legalidade, da institucionalidade e dos critérios essenciais de equidade que devem presidir processos tão delicados como o que acaba de ser levado a bom termo. A destituição do presidente abre fundadas esperanças num futuro melhor” – Editorial do jornal ABC Color deste sábado, 23 de junho.
“Um presidente sem respaldo, que se mostra negligente e incapaz, não pode seguir governando. Sem lugar a dúvidas, o erro mais grave de Fernando Lugo foi o respaldo outorgado a dirigentes de supostos camponeses que receberam carta branca do governo para invadir terras, ameaçar e desafiar o Estado de Direito. Lugo decepcionou a grande maioria da cidadania paraguaia com suas decisões errôneas, seu sarcasmo, sua desastrosa vida pessoal, sua ambiguidade e sua crescente amizade com inimigos declarados da democracia, como Hugo Chávez e os irmãos Castro" – Editorial do jornal Vanguardia deste sábado, 23 de junho.
"Lugo tem princípios populistas (não necessariamente incendiários). A reputação de honestidade lhe ajudou a ganhar, porém necessitará um poudo da ajuda do céu para exercer a Presidência" – Informação da Embaixada dos EUA, datada de junho de 2008, vazada pelo WikiLeaks, antes da posse de Lugo.
Sindijor na Fronteira
A diretora de cultura da subseção do Sindicato em Foz do Iguaçu, Fernanda Regina, que cobre a região fronteiriça do Brasil com o Paraguai, relatou que no último dia 27 centenas de pessoas protestaram em Ciudad del Este, fronteira com Foz do Iguaçu, contra o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo e abalou a democracia no Paraguai. “Os manifestantes saíram em caminhada pelas vias centrais; da prefeitura, onde estão acampados, em direção à aduana no país vizinho. Devido à marcha, o trânsito na região aduaneira, perto da Ponte da Amizade, foi interrompido por 15 minutos”, disse Regina, acrescentando que as manifestações são pacíficas, com participação de trabalhadores das camadas sociais mais populares.
Ao falar da opinião popular relativa ao golpe, a diretora é categórica: “o fato é que existe, sim, descontentamento por parte dos paraguaios, que estão engrossando os protestos contra “o golpe parlamentar” e em apoio à democracia. Desde o golpe, no dia 22, têm ocorrido várias manifestações no país vizinho, tanto em Assunção quanto no interior”.
Peixe fora da água
Lugo mexeu com a elite paraguaia. O Partido Colorado nunca aceitou que um Bispo, vindo de família humilde de San Solano, no distrito de San Pedro del Paraná, departamento de Itapúa, a 400 quilômetros ao sul de Assunção, de família opositora e perseguida pelo ditador Alfredo Stroessner (1954-1989) pudesse se tornar presidente do Paraguai em 2008.
O político deposto foi o principal nome do Movimiento Tekojoja (Tekojoja em guarany significa “viver entre iguais”). Surpreendeu o poder na vitoriosa campanha presidencial, provou ser carismático e com ideias revolucionárias (principalmente na defesa da reforma agrária no Paraguai). Aí está o ponto principal de sua destituição, “mexer nas terras do Partido Colorado”, que mesmo derrotado mantinha o poder político no país.
A eleição de Lugo, isso é fato e não versão, não representou necessariamente uma mudança no país. O Partido Colorado possui as alianças com os proprietários de latifúndios, esses ligados ou donos das empresas de comunicação, além dos militares, declaradamente, não simpatizaram com o político que veio do povo. Portanto, para não ser mais uma marionete presidencialista, precisaria de uma grande desenvoltura política, dentro da instituição Paraguai, para se manter até o fim do mandato; o que, após as versões recentes, não aconteceu.
A principal acusação: não lidar de forma competente e eficaz na questão da morte de 17 pessoas, onze campesinos e seis policiais, com cerca de 50 pessoas feridas no sangrento conflito agrário do dia 15 de junho deste ano em Canindeyú, Noroeste do Paraguai, fronteira com o Brasil.
Versões (não fatos) do Partido Colorado contra Lugo: apoiar à manifestação de jovens de esquerda no Comando de Engenharia das Forças Armadas, “obrigar” militares às ordens de sem-terra; falta de competência para combater atos de violência; ligações com guerrilheiros do EPP (Exército do Povo Paraguaio – que chega a ser lenda no Paraguai), além de violações de leis do país (Protocolo de Ushuaia 2 – que prevê intervenção externa caso a democracia esteja em perigo).
Em artigo, Doutor Rosinha, deputado federal (Paraná) e vice presidente do Parlamento do Mercosul, explica que foram versões e não fatos que derrubaram um presidente eleito pelo povo paraguaio: “alguns afirmam que os campesinos emboscaram os policiais. Outros culpam a polícia. O que menos importa para a oposição é apurar como tudo ocorreu. Apurar a verdade” (leia texto completo aqui).
Versões derrubam presidente
Lugo assumiu em agosto de 2008, após 35 anos de hegemonia do Partido Colorado. Seu mandato de cinco anos simbolizava o primeiro governo, pós ditadura, sem vínculos com o ditador Stroessner. Com fortes inimigos, além do Partido Colorado, a Unace e o PLRA (Partido Liberal Radical Autentico), que dizia ser “aliado” da situação. O resultado: seus próprios aliados votaram a favor de sua queda e Lugo deixou o Palácio de Los López em Assunção. Agora quem assume é o vice Luis Federico Franco Gómez.
Mídia e multinacional
O Sindijor relacionou artigos relacionados à deposição do presidente paraguaio Fernando Lugo:
Mídia de republiqueta – por Alberto Dines
Paraguai: A desinformação midiática e o golpe da Monsanto – por Leonardo Wexell Severo
*Regis Luís Cardoso
*Foto: Rodrigo Alonso Marichal


