Não há nada mais empolgante para um jornalista que uma grande cobertura. A adrenalina corre solta e ajuda a ficar atento ao trabalho. Mas é preciso estar bem preparado para esta situação.
Neste mês de junho, estiveram em Curitiba dois grandes nomes do jornalismo brasileiro como correspondentes, Milton Blay, da Rádio Bandeirantes – BandNews – que manda notícias da Europa, diretamente de Paris, e Tariq Saleh, gaúcho, que está na linha de frente da BBC World para o Oriente
Médio e África, de Beirtue, no Líbano.
A convite do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná eles conversaram sobre a realidade de grandes coberturas, como a Copa do Mundo, e também sobre os protestos que vêm ocorrendo, e que exigem muito dos profissionais. Milton Blay contou que em sua trajetória de muitas décadas em coberturas ousadas já viu de tudo. Na França, por exemplo, o governo dá treinamento especial para os jornalistas. E em meio à protestos e confrontos, a imprensa está sempre bem identificada a ponto de não correr o risco de ser confundida. Em seu livro “Direto de Paris – coq au vin con feijoada” – ele relata diversas reportagens, assegurando que o resultado de um bom trabalho vai muito além da técnica do jornalismo. Exige preparo e muito desenvolvimento pessoal. Ser curioso é fundamental, diz Blay.
Para Tariq Saleh, que esteve no SindijorPR para um workshop sobre “Segurança em Grandes Coberturas do Jornalismo”, estar atento a tudo é o que garante que consiga fazer o trabalho e sair bem, muitas vezes, vivo. O risco é sempre presente. Entre as várias dicas que deu no workshop, saber lidar com a pressão é uma das mais importantes. Respeitar os espaços da multidão e das autoridades é fundamental, “sempre demonstrar respeito e cordialidade”, mantendo a distância necessária para não ser confundido. E, sobretudo, não entrar em pânico, envolvendo-se emocionalmente com a situação.
Com relação à Copa do Mundo, Milton Blay diz que frente aos protestos que têm marcado o momento, é preciso cobrir da forma mais objetiva possível e honesta, mostrando o que de fato se vê em detalhes, considerando o clima da guerra partidária que está ocorrendo no Brasil. E destacou, “para fazer um bom jornalismo não é suficiente o fato, mas colocá-lo em perspectiva”. Sempre cuidar com as imagens, não se pode jogá-las cruas sem nenhuma explicação, elas por si só podem não ser mentirosas. O jornalista profissional é o mediador da notícia entre a sociedade e o poder. Hoje nas redes sociais, qualquer um tem se posicionado exercendo a função de jornalista, e na rede não há regras. Nós jornalistas, cumprimos regras e respeitamos os direitos, seguindo técnicas, há posições de ética em que não podemos tropeçar. Esta é a diferença do jornalismo profissional, afirma Blay.
Esta mesma ética também foi destacada pelo jornalista da BBC, que lembrou que ser esperto é diferente de querer enganar autoridades ou fontes para se conseguir uma notícia. Conhecer o local e como se comportar é algo fundamental para o jornalista. Saleh, afirmou ainda que os equipamentos de segurança fazem toda diferença numa cobertura de confronto. Em uma foto apresentada durante o workshop, foi possível ver que os jornalistas estrangeiros, que cobriam a manifestação em que o cinegrafista Santiago Andrade foi morto no Rio de Janeiro, usavam capacetes e coletes à prova de balas. “Isto poderia ter salvado o colega”, disse.
Outra dica importante destacada foi a integração da equipe, combinar sinais e pontos de encontro evitam problemas e perda de tempo, assim como carregar pouco equipamento e ser discreto, sem querer chamar atenção.
Os jornalistas que participaram do workshop sobre segurança com Saleh receberam dicas e orientações. Na opinião deles muito importantes e úteis. “Quando fiquei sabendo do evento já me interesse em fazer, mas esperava que fosse ouvir relatos de coberturas em lugares de grandes conflitos, uma realidade distante do Brasil. Minha surpresa foi me deparar não só com histórias interessantes, mas com dicas de segurança que podem (e devem) ser aplicadas no nosso dia a dia da cobertura nas ruas daqui. É um alerta importante para jornalistas e empresas de comunicação, que são responsáveis pela segurança de suas equipes”, relatou Adriana Czelusniak, repórter do jornal Gazeta do Povo.
Para o repórter da RICTV Record, Tiago Silva, na ansiedade de fazer um boa imagem, de conseguir uma boa matéria, esquecemos de nos preocupar com a segurança. E é importante lembrar que todo mundo pode ser vítima também. “O workshop foi muito bom, eu saio daqui com uma visão diferente e mais preparado para o que pode acontecer”. O cinegrafista da mesma emissora, Clemar Malmann, lembrou que não se tinha preocupação com a segurança, até que as manifestações começaram, e às vezes, sem querer o profissional se põe no risco. “Eu levo deste worshop mais consciência, maior cuidado, e uma visão de detalhes que eu não prestava atenção”.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná que promoveu o workshop com o apoio do Grupo Educacional Uninter, lembra que é importante o profissional estar sempre identificado com sua carteira de jornalista e credencial do evento que está cobrindo. Exigir e utilizar os equipamentos de segurança da empresa é um direito que deve ser exercido por todos os profissionais. A melhor notícia é aquela que pode ser dada com segurança e verdade, o resto não cumpre a função da profissão na sociedade.
Autor:Cristiane Lebelem


