A pobreza do Jornalismo Esportivo e a dificuldade para virar o jogo

Acompanhar a cobertura esportiva de futebol no Brasil tem sido um exercício de resignação. O que se observa são reportagens rasas e festivas, entrevistas coletivas pouco esclarecedoras e debates meramente polemistas. Isso se deve à crescente presença, no ofício jornalístico, de comunicadores amadores, profissionais pouco questionadores e veículos obcecados por audiência.

 

As reportagens versam, em geral, unicamente sobre a lógica dos jogos e competições – que são centrais, claro, mas que não abarcam a complexidade da indústria do esporte. Nas coletivas de imprensa, é recorrente a presença dos chamados criadores de conteúdo e influenciadores digitais, muitos sem formação, capacidade técnica nem olhar crítico. O mais irritante, porém, são os programas de debate, a maioria na televisão, no tradicional formato mesa-redonda, que, com parcas exceções, debruçam-se intencionalmente sobre temas banais e controversos, com vistas a angariar audiência.

 

Raros são os trabalhos investigativos na área. Cite um recente, de que você lembra. Talvez seja a reportagem da revista piauí revelando gastos desmedidos e manobras políticas do então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, para se manter no cargo. Próxima de um dossiê, a matéria é item raro, praticamente de colecionador, em um ambiente informativo marcado por notícias triviais, ingênuas e desinteressadas. Note-se que foi publicada em um veículo generalista, e não especializado, noutro sinal da debilidade do nicho esportivo.

 

Recentemente, um estudante de Jornalismo por mim orientado entrevistou os profissionais André Rizek (SporTV) e Rodrigo Capelo (Sport Insider; ex-Canais Globo), responsáveis por duas das grandes investigações jornalísticas sobre o futebol brasileiro, respectivamente: a reportagem “Máfia do apito”, publicada por Rizek na Veja em 2005 e que denunciou um esquema de manipulação de resultados de jogos do Campeonato Brasileiro; e a reportagem, veiculada no Fantástico, que apontou crimes financeiros na gestão do Cruzeiro e levou à renúncia da direção do clube. Questionados sobre o horizonte da investigação jornalística nos esportes, ambos se mostraram pessimistas: apontam a crise dos veículos impressos, a redução das redações e a falta de estrutura para apurações aprofundadas como entraves que dificultam, quando não inviabilizam, as reportagens investigativas na área.

 

Sintomática é uma breve história contada por Rizek, na entrevista ao estudante. Ele conta que, certa vez, foi abordado por uma estudante de 15 anos que lhe revelou a vontade de ser jornalista. Questionada se gostaria de fazer reportagens, a garota respondeu que não; seu plano era criar um canal no YouTube para fazer análises dos jogos do time para o qual torce. Há clara confusão sobre as diferenças entre reportagem e análise; mais do que isso: entre informar e torcer. Preocupa imaginar, a partir desse episódio, que as ambições da próxima geração de jornalistas estejam por demais distantes das práticas tradicionais e consagradas da profissão.

 

O paradoxo dessa cobertura empobrecida – e cujo horizonte é nada alvissareiro – é que o futebol brasileiro vive um momento efervescente, com clubes mudando a estrutura de gestão, a partir da Sociedade Anônima do Futebol (SAF); investidores estrangeiros aportando dinheiro localmente; formação de blocos de clubes para negociação de direitos de transmissão; adoção de novas tecnologias para a arbitragem do jogo; desenvolvimento acelerado do futebol feminino; e alarmante expansão do mercado de apostas esportivas, entre outras novidades que formam vasta matéria-prima para reportagens e debates qualificados.

 

Virar esse jogo não será tarefa fácil, mas que iniciativas individuais, como reportagens críticas e investigativas, tal qual a da revista piauí e as do jornalista Jamil Chade; ou institucionais, como os projetos Agência Sportlight (do jornalista e historiador Lúcio de Castro) e Sport Insider (do próprio Rodrigo Capelo), além do podcast UOL Esporte Histórias, multipliquem-se. O torcedor, ainda que prioritariamente queira ver seu time ganhar, merece estar plenamente informado sobre o que acontece para além do campo – e esse papel nos cabe.

Autor: Renan Colombo

Renan Colombo é jornalista freelancer e professor da PUCPR. É doutor em Ciências da Informação (UFP/Portugal) e em Comunicação (UFPR), mestre em Ciência Política (UFPR) e especialista em Mídias Digitais (UniCesumar). Foi repórter e editor da Gazeta do Povo.

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