Mulher jornalista vive o desafio de enfrentar a violência digital

Quando comecei a trabalhar como jornalista, em 1983, as mulheres ainda eram minoria nas redações. Nesses 42 anos em que exerço essa profissão, as coisas mudaram muito, mas em relação à mulher, nem tudo foi para melhor. Se antes os desafios nossos eram enfrentar um machismo inerente à maioria das profissões, provar que podíamos fazer tão bem ou melhor que os homens o trabalho de apurar e reportar fatos e ganhar sobretudo a confiança dos nossos chefes, hoje o machismo que persegue a profissional jornalista vem também pela violência digital por parte de um público com um discurso de ódio embutido, típico de nossos tempos.

 

A mulher jornalista não precisa mais provar para os chefes que sabe fazer o trabalho. Muitas redações são majoritariamente femininas. E em termos de salários, os sindicatos da categoria vêm lutando para que a equiparação com os homens possa vir a ser uma pauta vencida. Ela ainda sofre assédio sexual e moral nas redações, mas hoje, diferentemente de quando eu comecei na carreira, existe um esforço para acolher e amparar quem denuncia essas situações. A legislação protege a mulher que é mãe e algumas empresas (nem todas) são especialmente cuidadosas com suas trabalhadoras.

 

Só que hoje a mulher jornalista sofre um assédio novo, cruel, marca do nosso tempo. É ela a maior vítima do machismo engordado pelo discurso de ódio, que vem sobretudo online, por meio das redes sociais e aplicativos de mensagens. Mas que também pode chegar como ameaça física em público, como recentemente ocorreu com a jornalista Natuza Nery, da Globonews, em São Paulo.

 

A violência digital contra as jornalistas mulheres costuma ser implacável. Quando uma profissional no seu trabalho diz algo que não agrada a certos grupos, ela é atacada sem dó, de forma vil. Nos ataques misóginos, depreciam sua aparência, seu modo de vestir, sua cor, sua idade, jogam no ar todo tipo de ofensa que entendem que possa magoar, ferir e até fazer algumas delas desistirem da profissão. Cuidar da saúde mental de todos os jornalistas é importante, mas é ainda mais essencial para as mulheres que vivem esse tipo de situação.

 

Mas ser jornalista continua sendo exercer uma profissão maravilhosa. Eu não a trocaria por nada. Ainda vamos sofrer muito antes de conseguir combater essa violência digital. Mas certamente vamos conseguir.

Autor: Martha Feldens

Jornalista com experiência em jornalismo diário impresso e online, com passagens pela imprensa regional e nacional, como Jornal do Brasil, Editora Abril, Gazeta Mercantil e Grupo Band. Atuou ainda em comunicação governamental e assessoria política. Produz o Blog da Martha Feldens e e o site de viagens Nuestra América.

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