Primeiro semestre violento para jornalistas

Paraná acompanha triste realidade apontada em pesquisa. Nigéria, Brasil, Somália, Indonésia e México são os lugares mais perigosos para a categoria
Pesquisa feita pelo International News Safety Institute revela que pelo menos 70 trabalhadores (jornalistas e profissionais de mídia) morreram em coberturas jornalísticas no primeiro semestre de 2012. No Paraná, o Sindijor relembra quatro casos que remetem há períodos obscuros da nossa história ocorridos só no mês de junho.
1 de junho: O mês começou com uma tentativa de cercear a liberdade de expressão em Curitiba, representada numa ação movida pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) contra o blog Lado B, da jornalista e ex-diretora do Sindijor, Thea Tavares. O fato ocorreu quando a jornalista publicou em seu canal na web textos e imagens a respeito do então prefeito, hoje candidato a prefeitura de Curitiba, Luciano Ducci. No caso, as postagens de Thea eram de Ducci com Derosso, Beto Richa, os três juntos, e, ironizando, a frase: “Em Curitiba tudo é para a Família: do Beto, do Ducci, do Derosso, do Taniguchi…”. Muitas das imagens são publicações da própria agência de notícias do município.
5 de junho: O vereador Marcos Rios (PDT), de Cascavel, oeste do Paraná, agrediu verbalmente a jornalistas Laís Lainy, do Jornal Hoje e também diretora de cultura do Sindijor (Subseção Cascavel). O político citou a jornalista em sessão ordinária na Câmara Municipal da cidade. Na mesma casa legislativa, outro vereador, Mario Seibert (PTC), citou outro profissional da imprensa cascavelense, Paulo Martins, da TV Tarobá, e difamou o trabalho jornalístico na região. Seibert fez a seguinte declaração: “(…) não é a justiça ou a imprensa que paga o salário dessa merda de Câmara”.
18 de junho: Em Paranaguá, cidade portuária no litoral paranaense, um caso estarreceu não só o Sindijor, mas todos que trabalham com a imprensa na região. Nello Morlotti, radialista na cidade, atacou verbalmente a jornalista Andressa Urbick, da TVCI (empresa parnanguara que tem programação local e também retransmite o Esporte Interativo). O fato ocorreu na sede do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), quando a jornalista fazia uma pauta e foi impedida com ameaças, acusações arbitrárias e ofensas morais.
30 de junho: A equipe de jornalismo da RICTV Record cobria pauta sobre suposta briga entre punks e skinheads, que terminou com a morte de um homem. No decorrer dos acontecimentos, o suspeito pelo crime foi detido e estava no 1º Distrito Policial de Curitiba. Na manhã do dia 30, alguns dos envolvidos na briga, foram até a delegacia prestar depoimento. Quando encontraram a equipe de reportagem, agrediram o repórter e o cinegrafista da emissora, que registraram Boletim de Ocorrência no mesmo Distrito.
Estudo global
Voltando ao numero do INSI, quinze mortes de jornalistas foram confirmadas na Síria entre janeiro e junho deste ano. Já os dados globais apontam 70 óbitos. Ano passado foram computados 124 mortos, 56 no primeiro semestre. “Jornalistas estão mais do que nunca na mira dos inimigos da liberdade de expressão”, diz Rodney Pinder, diretor do International News Safety Institute, responsável pela divulgação dos números. O agravante é que a maior parte das mortes dos jornalistas aconteceu em países que estão em períodos de paz. “(…) 43 jornalistas morreram em países que estão oficialmente em paz, em sua maioria vítimas de criminosos, muitas vezes auxiliados por forças policiais, políticos e empresários corruptos” (texto do INSI).
Ameaças também fazem parte do dia a dia do jornalismo paranaense. Foi assim com Mauri König, em que postagens anônimas o classificavam como “inimigo público número 1 da Polícia Civil”. O fato ocorreu em maio deste ano com o jornalista da Gazeta do Povo que fez uma série de reportagens intitulada “Polícia Fora da Lei”, que apurou irregularidades na aplicação do Fundo Rotativo da Polícia, com denúncia de funcionários, inclusive delegados, por mau uso de verba e bens públicos.
Assassinatos no Brasil
O caso de maior repercussão aconteceu dia 23 de abril deste ano, quando Décio Sá foi assassinado num bar em São Luís (MA) com seis tiros vindos de uma pistola exclusiva de uso militar. O jornalista trabalhava na Editoria de Política do Jornal O Estado do Maranhão e também editava o Blog do Décio. Jhonatan de Souza Silva, 24 anos, assassino confesso do jornalista, disse ter sido contratado por uma quadrilha de agiotas para matar Décio, também há suspeitas de envolvimento político no caso. O desfecho desse crime ainda está na justiça.
Este ano no Brasil, além de Décia Sá, outros jornalistas foram assassinados: Valério Luiz de Oliveira, Goiânia (GO); Paulo Roberto Cardoso Rodrigues (Paulo Rocaro), Ponta Porã (MS); Mário Randolfo Marques Lopes, Vassouras (RJ) e Laécio de Souza de Simões Filho, Simões Filho (BA).
Segundo estudo do INSI, a impunidade chega a 90% dos assassinos de jornalistas nos últimos dez anos.

Por Regis Luís Cardoso (com informações da INSI e ABRAJI ).

*Foto: web

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