esqueci minha senha / primeiro acesso

notícias

29/03/2021

Posicionamento sobre ‘kit covid’, desinformação na pandemia e a responsabilidade do Jornalismo

Com mais de 300 mil vidas ceifadas pela pandemia, o Brasil vive atualmente um dos momentos mais dramáticos em meio à crise sanitária decorrente do avanço desenfreado da Covid-19. Faltam leitos clínicos e de UTI para receber tantos doentes, os profissionais de saúde estão no limite do esgotamento, há lentidão na aquisição e distribuição de vacinas e como se não bastasse este cenário desolador, ainda convivemos com uma epidemia paralela à causada pelo novo coronavírus: uma infodemia, em outras palavras, uma epidemia de desinformação – conforme declaração pública realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ainda em 2020.



No Brasil, de maneira mais específica, enfrentamos nos últimos dias, à medida que crescem as filas de espera por internamento e as mortes por Covid-19, uma disputa de narrativas que se acentua na imprensa em torno do que vem sendo chamado de “Kit Covid” – um coquetel de medicamentos que, a despeito de não contar com qualquer comprovação científica de eficácia contra a Covid-19, vem sendo prescrito e propagado entre a população sob a forma de tratamento precoce - que não existe. Este mesmo kit tem sido defendido amplamente por grupos ligados a estratos sociais empresariais, políticos e religiosos, que tentam convencer a opinião pública de que “bastaria realizar o tal tratamento precoce” para que a vida e a economia sigam seu curso “normalmente”. Entre esses empresários com interesses diversos, estão também donos de empresas de comunicação, que agora abertamente atuam em defesa do ‘kit covid’, utilizando suas plataformas de mídia e o jornalismo profissional para esse fim, divulgando algo que não tem comprovação científica e, o mais grave, como "contraproposta" à vacinação universalizada, única medida cientificamente comprovada para diminuir a propagação da doença.


As manifestações de órgãos como a Organização Mundial de Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além de inúmeras sociedades médicas e de outros profissionais de saúde e dos próprios fabricantes destes medicamentos, têm buscado alertar a sociedade sobre a inexistência de qualquer tipo de tratamento precoce contra a Covid-19. Corroboram com estes posicionamentos os casos de pacientes que têm piorado drasticamente ou até mesmo perdido a vida face ao uso do chamado ‘Kit Covid’, entre esses casos, o registro crescente de mortes por hepatite medicamentosa.


Neste contexto, também tem crescido o número de jornalistas que procuram as entidades de representação profissional para denunciar a coação e a pressão por parte das empresas de jornalismo para a produção de reportagens que buscam conferir ao ‘tratamento precoce’ uma credibilidade que ele não tem e assim, enganar a opinião pública e empurrar as pessoas para a doença e a morte.


Desta forma, os Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Paraná e do Norte do Paraná e a Federação Nacional dos Jornalistas se posicionam de maneira a reafirmar para a sociedade o compromisso do jornalismo profissional com a defesa da vacina como única maneira comprovadamente científica de evitar precocemente o contágio pelo coronavírus e rechaçar o avanço de veículos de imprensa que utilizam seus meios para propagar a desinformação sobre o uso do ‘kit Covid’ como "tratamento precoce".


O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, documento que rege a conduta dos jornalistas profissionais e devidamente habilitados para o exercício da profissão, aborda em seu artigo 1º o direito fundamental à informação; este, concebido como aquele que prevê o direito do profissional de informar, do cidadão de ser informado e de ambos de ter acesso à informação. Aspecto que ganha ainda mais peso quando uma informação perigosamente distorcida ou falseada pode representar o limite entre a vida e a morte.


Nós, entidades de representação e defesa profissional, acreditamos que neste contexto, de avanço da pandemia e da epidemia de desinformação, é que o jornalismo profissional ganha ainda mais importância, exercendo papel fundamental no esclarecimento da sociedade e em defesa da saúde e da vida.


Neste sentido, com base na orientação ética, faz-se necessário relembrar que é dever de todo jornalista profissional realizar a divulgação precisa e correta das informações (Art. 2º, inciso I); primar pela veracidade, buscando atender ao interesse público (Art. 2º, inciso II); se pautar pela apuração e correta divulgação dos fatos (Art. 4º); e informar claramente a sociedade sobre todas as questões que a afetam (Art. 12º, inciso IV).


O Artigo 7º do Código de Ética estabelece ainda que o jornalista não pode submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração e à correta divulgação da informação (Inciso II). Em outras palavras, nenhum profissional do Jornalismo pode contribuir para ou se omitir diante de práticas que busquem promover a desinformação e assim, lançar a sociedade ao obscurantismo e negacionismo. Tal asserção se torna ainda mais válida quando a informação tem o condão de preservar vidas.


Ainda no que se refere aos jornalistas que vêm sendo pressionados para contribuir para a desinformação da sociedade, o Artigo 13º do Código de Ética estabelece a cláusula de consciência, em que todo profissional pode se recusar a elaborar qualquer conteúdo jornalístico que desrespeite o que prevê o código deontológico da profissão.


Caso esta cláusula seja desrespeitada, os jornalistas podem e devem acionar, anonimamente, as Comissões de Ética dos Sindicatos de Jornalistas Profissionais ou a própria Comissão Nacional de Ética da Fenaj para denunciar empresários da Comunicação que, movidos por outros interesses, têm buscado promover a desinformação em um dos momentos mais dramáticos da pandemia e da história recente do Brasil.


Conforme já apontou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), é importante frisar que a difusão de informações falsas e/ou imprecisas se multiplica exponencialmente pelos meios virtuais, dificultando que as pessoas tenham acesso a fontes idôneas; contribuindo para o desenvolvimento de transtornos ligados à exaustão emocional e afetando o processo de tomada de decisão no cotidiano. Além disso, segundo a OPAS, a infodemia se aprofunda em meios às redes sociais, onde não há controle de qualidade da informação e em que qualquer pessoa pode escrever ou publicar qualquer coisa sem nenhum compromisso ético.


Diante destas questões, nosso apelo é para que os jornalistas profissionais resistam e não contribuam para a promoção da desinformação. O papel do jornalismo é o de orientar e informar corretamente a sociedade e cobrar das autoridades públicas as ações efetivas no combate à pandemia.



Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná


Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Norte do Paraná


Federação Nacional dos Jornalistas

Autor:SindijorPR