esqueci minha senha / primeiro acesso

notícias

03/04/2019

Um ano depois, caso de assédio contra jornalista segue impune no Paraná


Foto: José Tramontin/OFEC



Uma jornalista foi assediada, sofrendo incontáveis insultos sexistas e atos de hostilização, enquanto coordenava uma coletiva de imprensa - ou seja, em pleno exercício da atividade profissional- no estádio Coronel Emílio Gomes, em Irati, na região Centro-Sul do Paraná. Trata-se de um fato novo? Não. Não estamos falando efetivamente de uma 'notícia', mas sim relembrando os lamentáveis e criminosos ataques dirigidos à assessora de imprensa do Operário Ferroviário Esporte Clube, Bianca Machado, há exatamente um ano - caso que repercutiu, inclusive, em âmbito nacional. E o que há de novo nessa história e que justifique que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR) insista nesta pauta? Nada. E é esse “nada de novo” que causa preocupação e revolta.


“Foi horrível demais. Eu ainda lembro daquilo todos os dias”, revela Bianca, que segue à frente da assessoria de imprensa do Operário e que, de certa forma, continua sofrendo as consequências dos ataques sofridos por torcedores e torcedoras naquela ocasião. Mas, mesmo diante de todo o dano decorrente daquela situação, ainda hoje, não é possível afirmar que houve algum tipo de reparação em relação à jornalista.


Na mesma semana em que tudo aconteceu, em 1° de abril de 2018, o SindijorPR e o advogado Paulo Pereira, que voluntariamente assumiu a representação da jornalista, procuraram a Polícia Civil para solicitar a abertura de um inquérito para apurar as responsabilidades em relação ao assédio e à hostilização cometidos contra a jornalista. O então delegado-chefe da Subdivisão Policial, Danilo Cesto, acolheu o pedido e remeteu o caso à Delegacia de Irati.


Em Irati, quem cuida da investigação é o delegado Paulo César Eugênio Ribeiro. Ele revela que os autores dos ataques contra a profissional já estão identificados, mas que ainda existem questões pendentes. “Parte das pessoas envolvidas já foram ouvidas. Mas, precisamos dar continuidade para poder apurar estes fatos e poder encaminhar o inquérito para o Ministério Público”, explica.


O advogado Paulo Pereira, no entanto, assinala que quando encaminhou o pedido de investigação à polícia já havia indicado as testemunhas e os possíveis autores, além de ter anexado vídeos e outras provas aos documentos. “Pela experiência comum, este inquérito já deveria ter virado um processo judicial, momento em que o juiz já poderia designar uma audiência para poder ouvir e acabar julgando os eventuais acusados. Mas, o inquérito ainda está na Delegacia de Polícia, o que é bastante lamentável”, considera.


A diretora de Interior do SindijorPR, Aline Rios, considera que é preciso avançar no sentido de apurar as responsabilidades dos envolvidos. “Não sabemos qual é o contexto que leva o caso a ainda não ter sido levado para a esfera judicial, mas sabemos que eventuais atrasos, nestas situações, contribuem e muito para fortalecer a sensação de impunidade. E isso, em certa medida, não ajuda a evitar que novos casos venham a acontecer”, lamenta.


Para Bianca, ainda é grande a esperança de que algo seja feito. “Este ano foi de muita expectativa, no sentido de que este processo vá para frente e que isso de alguma forma sirva de exemplo para que outras pessoas vejam que não é porque se está em um estádio, como torcedor, que você pode fazer qualquer coisa... que não existe lei. Não é assim que funciona”, considera.


O SindijorPR segue acompanhando os desdobramentos do caso e irá oficializar um pedido de atenção e agilidade no processo de investigação junto à Polícia Civil. “Não podemos esperar que fatos mais graves aconteçam, para só então adotar medidas mais efetivas. Nenhum profissional quer ser atacado enquanto está trabalhando, não encaramos estas situações como algo natural. A categoria reivindica uma resposta”, observa Rios, destacando que uma série de apontamentos sobre segurança na atividade profissional em estádios - realizados pelos jornalistas - também serão reiterados junto à Federação Paranaense de Futebol.


Dor transformada em luta


Apesar de tudo o que sofreu, a jornalista Bianca Machado não deixou a atividade profissional - o que seria algo bastante aceitável diante da gravidade da situação que enfrentou. Ao contrário disso, ela segue investindo em novas ações no combate ao machismo e à violência contra a mulher. Além de participar de várias atividades que buscam debater o assédio no futebol, a jornalista também está promovendo um trabalho de conscientização a partir de sua atuação no Operário, direcionado a atletas, torcedores e funcionários do clube. 


Questionada sobre a relação entre o que viveu e a maneira como conduz os projetos em sua atividade profissional, Bianca é enfática: “Eu ainda tento fazer daquilo uma espécie de aprendizado, tentando também trazer essas questões para o meu trabalho porque acredito que o caminho para que estas situações não voltem a acontecer é através da conscientização. Tentei fazer algo mais efetivo do que um 'simples parabéns pelo mês da mulher'. Nós não queremos isso. Não queremos “parabéns”. Nós queremos ver os índices de violência contra a mulher diminuírem e mudar essa realidade”, manifesta.

Autor:SindijorPR