esqueci minha senha / primeiro acesso

notícias

16/11/2017

“Mídia pública não deve ser correia de governos de plantão”, apontam jornalistas

“Mídia pública não deve ser correia de governos de plantão”, apontam jornalistas
Foto: Júlio Carignano
Professores, estudantes de jornalismo e profissionais da imprensa participaram na noite de terça-feira (14) de uma roda de conversas sobre mídia pública na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR), em Curitiba. Organizado pelo Coletivo Chega Junto, o debate teve como convidados os professores e jornalistas Guilherme Carvalho e Marcelo Hengel Bronosky e mediação da jornalista Silvia Valim, diretora de cultura e eventos do SindijorPR.

Coincidentemente o debate aconteceu no mesmo dia em que trabalhadores da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) – principal referência de mídia pública no país – deflagraram greve nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Maranhão. Esse fato foi lembrado pelos convidados, que destacaram que o atual momento da mídia no país se insere no contexto de um período de atentado à democracia e estado de exceção.

“Num contexto de estado de exceção a mídia é um dos setores que mais sofre na sociedade. A greve dos colegas da EBC não é uma greve corporativa ou salarial, como historicamente são as greves, mas sim de discordância das políticas de ingerência dos diretores. É um movimento por garantias individuais e coletivas. O que acontece na EBC é sintomático nesse cenário de resistência”, destacou Marcelo Bronoski, que coordena o mestrado em jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Guilherme Carvalho lembrou dos retrocessos na mídia pública desde o golpe que colocou Michel Temer (PMDB) na presidência da república. De lá para cá, medidas provisórias alteraram a estrutura da EBC, entre elas a destituição do Conselho Curador – que era composto por 22 membros (15 da sociedade civil, quatro do governo federal, um da Câmara dos Deputados, um do Senado e um representante dos trabalhadores da EBC). Com isso o presidente eleito da emissora, jornalista Ricardo Melo, foi exonerado, apesar de seu mandato se encerrar apenas em 2018. Para o seu lugar, foi nomeado o jornalista Laerte Rímoli. “Isso mostra o quanto os poucos avanços conquistados nos governos Lula e Dilma eram frágeis enquanto alternativa à mídia pública”, ressaltou Carvalho.

“Correia de transmissão”


Entre os principais pontos destacados no debate estiveram as contradições daquilo que comumente é chamado de mídia pública e de como essa mídia tem sido apropriada por alguns setores da sociedade, em especial grupos políticos – nas esferas municipal, estadual e federal. Estudioso do tema, Carvalho destacou que a comunicação pública que deveria atender aos múltiplos públicos do país e à diversidade de ideias, acaba por tornar-se apenas um instrumento político dos “governos de plantão”.

“O panorama das empresas públicas de comunicação é da utilização destes meios para interesses privados. Está relacionado aos interesses políticos. As mudanças de governo, alguns mais progressistas e outros mais liberais, jamais representaram mudanças de conteúdo e de forma”, ressaltou Carvalho, que iniciou estudos sobre o tema quando era presidente do SindijorPR (2012-2015).

O jornalista lembrou que a discussão sobre mídia pública, em especial no Paraná, surge com a bandeira da defesa dos concursos públicos na Rádio e Televisão Educativa do Paraná (RTVE) e da garantia de autonomia para os profissionais e independência editorial da emissora. “Naquele momento, mais de 40 funcionários trabalhavam sem nenhum tipo de contrato, apenas recebendo cachê. Outra parte era de cargos comissionados e uma pequena parcela era concursada”, lembra o ex-presidente do SindijorPR.

Além das questões editoriais, de uma mídia atrelada unicamente aos interesses de governos, Carvalho problematiza questões de gestão da comunicação pública. Em sua opinião, “os jornalistas só pensam na mídia pública como espaço de atuação (quando pensam), mas nunca como espaços de gestão. A partir desse problema também se amplia a pouca autonomia dos jornalistas, que não podem propor pautas, fazer reportagens de maneira mais independente”.

Novamente citando o exemplo da RTVE-Paraná, Carvalho falou que a principal diferença entre as gestões do ex-governador Roberto Requião (PMDB) e do atual Beto Richa (PSDB) era na quantidade de programação. Durante o governo Requião, 44% da grade da RTVE era de conteúdo próprio, enquanto no governo Richa nunca passou de 8%. Porém, segundo ele, isso não significou efetivamente uma maneira diferente de operar e de se estabelecer as relações de trabalho dentro da emissora.

Exemplos da BBC e Telesur

O jornalismo da BBC, da Inglaterra, foi citada como mídia pública com padrões de qualidade para produção de conteúdo, que consegue mesclar a receita de informar e entreter, sem perder credibilidade. “A BBC, ainda que tenha passado por mudanças recentes, onde abriu-se também para exploração do mercado privado, consegue resultados de competição e concorre no topo da audiência com as empresas comerciais. Por lá há o entendimento da TV enquanto patrimônio público e o entendimento que audiência não significa necessariamente ser transformada em commoditie, em dinheiro”, apontou Marcelo Bronoski.

Outro exemplo de comunicação pública trazido ao debate foi a Telesur, empresa estatal venezuelana. Durante o governo de Requião, a TV Educativa do Paraná transmitia conteúdos da Telesur, como fonte alternativa de informação. À época, jornalistas brasileiros também colaboravam com o noticiário da Telesur. A diretora do SindijorPR, Silvia Valim, era uma dessas profissionais. “A linha editorial da Telesur era honesta com seu público, pois ela se declarava multiestatal, mas se pautava pela diversidade, pelo espaço para movimentos sociais. Obviamente que também tinha muita promoção pessoal, ela se declarava chavista, mas plasticamente e tecnicamente mantinha um padrão que poderia ser comparado a de canais como a Globonews, obviamente com outro viés e linha política”, comenta a jornalista.

Lançamento de livro

Logo após o debate, Guilherme Carvalho lançou o livro O Espaço da Mídia Pública no Brasil. Editado pela Appris Editora, a obra reúne versões atualizadas das pesquisas sobre mídia pública realizadas pelo jornalista. Segundo o autor, o livro pretende contribuir para que a temática seja compreendida como um fundamento de extrema importância para a democracia. “Acredito que a popularização deste debate é a principal via para se aprimorar as ações em prol da qualidade dos meios de comunicação públicos do Brasil”, destaca Carvalho.
Autor:Júlio Carignano