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27/10/2015

Crise de modelo de negócios e financeira tentam justificar as demissões de jornalistas no Paraná

Crise de modelo de negócios e financeira tentam justificar as demissões de jornalistas no Paraná

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Vivemos um momento delicado, que aponta para a necessidade de reformular, reinventar. Por um lado, a crise do modelo de negócios, os meios de comunicação que se consolidaram nos últimos 60 anos no Brasil passam por uma conflagração, dada as novas possibilidades de acesso e circulação da informação proporcionadas pelas tecnologias. Do outro, uma crise financeira que afeta os trabalhadores para não afetar os patrões.


“A gente vê esses meios antigos concorrendo nesses espaços em que eles não conseguem transformar a audiência deles em retorno financeiro. É o que acontece, por exemplo, com a Gazeta do Povo, quando a gente está falando da Gazeta Online, que é um meio de comunicação que ainda não conseguiu garantir o retorno financeiro que o meio impresso e que a televisão tinham até então. Ainda que a TV não tenha uma linha tão descendente, quanto os meios impressos, mas também passa por uma crise enfrentando a internet e a TV a cabo”, afirma o jornalista e ex-diretor-presidente do SindijorPR, Guilherme Carvalho.


Professor dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas na UFPR, professor de Jornalismo no Centro Universitário Uninter (UNINTER) e pesquisador no projeto Comunicação & Democracia, Carvalho analisa que, além disso, se implica a lógica do lucro como fim. Mas nesse caminho o sentido se dá inverso, já que a redução de postos de trabalho e a sobrecarga para os que ficam, atinge a qualidade do produto final do veículo de comunicação: a notícia com qualidade.


 “Sempre que se trata de um veículo de comunicação que tem como lógica, como objetivo fim, o lucro, e por mais que os meios de comunicação do Brasil privados digam que seu principal interesse é público, a verdade é que a produção de notícia sempre é meio para obtenção financeira. E, assim, quando o negócio não dá retorno nesse sentido, com o aumento do capital desses empresários, a alternativa é cortes de gastos para não perder lucro ou retomar seu crescimento, como eles tiveram nos anos 80 e 90 e que agora é ameaçado por essa transformação de mercado. E, nesse sentido, sobra para o trabalhador, os jornalistas são demitidos”, explica.


Crise não justifica o desrespeito


“Eu entendo a demissão sempre como uma ação desrespeitosa, onde se desconsidera anos de trabalho e dedicação de um profissional. São pessoas que apostam suas fichas em uma empresa e acabam sendo demitidas, de uma hora para outra, como se não tivessem ajudado a construir aquele veículo de comunicação, sua credibilidade”, afirma Carvalho. É o caso, por exemplo, do repórter Mauri König, um dos 11 jornalistas demitidos pela Gazeta do Povo no “passaralho” de agosto deste ano, finalista de mais uma edição do Prêmio ExxonMobil (ex-Esso), o mais importante reconhecimento dado aos trabalhadores da área no País.


Mas para o professor, a ação de desrespeito contra os jornalistas vai além dos atos de demissões. Por um lado, os jornalistas estão sujeitos às violências externas, aquelas causadas em campo - como o que sucedeu com os profissionais agredidos durante a cobertura do Massacre do dia 29 de Abril, quando a polícia, a mando do Governo Beto Richa (PSDB), atacou os professores que lutavam pelo não retrocesso de seus direitos -, mas também há as práticas violentas internas nas redações.


O estudo “Controle editorial nas redações: sobre a percepção dos jornalistas de TV de Curitiba”, desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2014, aponta um aspecto desse cenário. Conforme artigo publicado no site do Fórum Nacional pela Democratização da Mídia (FNDC), de Ester Athanásio, a pesquisa classificou o comportamento dos jornalistas do Paraná frente à pressão editorial presente nas redações.


De acordo com os resultados, 88,6% dos jornalistas percebe, em alguma medida, a interferência editorial originada de critérios não-jornalísticos (interesses político-econômicos, por exemplo) e 74,3% já realizou pauta “recomendada” (instrução para escrever reportagem de acordo com interesses do veículo enquanto empresa). Apesar da cláusula de consciência contida no Código de Ética da profissão, apenas 1,4% já se recusou a obedecer à ordem.


Os dados revelam como a cultura organizacional das empresas jornalísticas tende a se sobrepor a ética da própria profissão que prega a independência e a imparcialidade. Segundo estudo desenvolvido por Warren Breed em 1955,Teoria Organizacional, os jornalistas seguem apáticos em relação as orientações das chefias a fim de manter seu posto de trabalho. Seis décadas depois e a realidade é a mesma. A pesquisa feita no Paraná aponta que 55,7% dos pesquisados não concordam com as pressões, mas mesmo assim administram o impasse “com cautela”, sendo que 8,5% obedecem a esse tipo de ordem para manter emprego.


 “Isto está relacionado com uma lógica de desvalorização do profissional (...). É uma estratégia que se estabelece nas redações, por metas, por objetivos, que leva o profissional a um processo de precarização das suas condições de trabalho e, consequentemente, da sua própria condição de vida”, reflete Carvalho.


Propriedade cruzada também se relaciona com precarização


Sandra Nodari, professora de jornalismo na Universidade Positivo, acredita que o cenário de propriedades cruzadas da mídia está relacionado com o retrocesso das relações trabalhistas. Nesse sentido, a jornalista relembra a compra do jornal Tribuna do Paraná pelo grupo GRPCom, bem como a história do Canal 4, do Grupo Paulo Pimentel, que teve importância para o desenvolvimento do jornalismo no Estado.


Para Nodari, a propriedade cruzada modifica não somente a linha editorial dos jornais, mas também a cultura que se tinha do fazer jornalismo. No caso da Tribuna, policial, a partir da escola desenvolvida pelos jornalistas que viveram o jornal por muitos anos.


“A falta de concorrência por si já é autoexplicativa com relação à perda para o público que não tem visões diferentes de uma mesma notícia, com interpretação e reflexão diferentes. Para o jornalista, então, pode criar uma sensação de não mais pertencimento àquele veículo, àquela forma de fazer jornalismo, que não tem tranquilidade de trabalhar porque não sabe até quando o jornal continua aberto. Vai fechar no final do ano?”, questiona Nodari.


 A consequência se dá no fundamento do medo nos trabalhadores e, logo, as doenças decorrentes do trabalho: “Todos perdem com a lógica da propriedade cruzada. O desrespeito dos patrões para com a classe é descarado, eu mesma já ouvi de um diretor de emissora de TV uma vez que, se um jornalista da empresa que ele administrava entrasse na Justiça cobrando qualquer coisa, ele mesmo diria ao juiz que a legislação que protege o jornalista é absurda. Claro, que ele perdeu todas as ações trabalhistas movidas contra a empresa, sem nunca ter ido a uma audiência. Mas o assédio moral sempre existiu e continua firme. Este exemplo permite percebermos que os jornalistas são tratados como inimigos úteis em várias redações que prefeririam pagar salários menores, sem horas extras, por cargas horárias maiores”, reforça a jornalista que, antes de professora da área, atuou como repórter.


Novas experiências e luta pela democratização são fundamentais para mídia brasileira


 Neste cenário complexo de crise, faz-se necessário pensar em reformulações e isso se dá em diversas instâncias. “A esperança que sobra é tentar pensar outras possibilidades que sejam menos dependentes ou vulneráveis a esse tipo de situação. Acho necessário apostar em jornalismo alternativo, grupos de jornalistas que se organizam para produzir conteúdos, temos casos bem legais que já apontam para essa possibilidade de sustentação. Isso, de algum modo, é um alento, precisamos pensar essas alternativas e como sustentá-las financeiramente”, aponta Carvalho.


Porém, para além das pequenas experiências, para a diretora de formação do SindijorPR, Diangela Menegazzi, também é fundamental pensar o jornalismo em um cenário macro. Nesse sentido, nunca foi tão importante lutar pela democratização da mídia, pelas quebras dos monopólios. Menegazzi afirma que a pauta é fundamental e diz respeito a todos os brasileiros, além de a luta para existir de fato a complementariedade do sistema (público, estatal e privado), interferir, também, diretamente no mercado de trabalho dos jornalistas.


“Em um cenário de fortalecimento das rádios e tvs públicas, e outras mídias alternativas, haveria um considerável aumento de produção regional e local de conteúdos jornalísticos, abrindo novos postos de trabalho. Vale lembrar que a ausência de regulação dá espaço para que impere no campo da comunicação a lei do mercado, onde os interesses políticos e econômicos de poucos grupos prevalecem sobre os da maioria da população. Exemplos dessa censura velada são a falta de diversidade na programação cultural e a falta de pluralidade nas narrativas jornalísticas”, explica.


A junção das experiências e da luta pela comunicação em sentido micro e macro são as que conseguirão garantir ao público a chegada de informações plurais, representativas, com apuração de notícias qualificadas que se atentem as questões sociais. “Sem o jornalismo não saberíamos o que realmente vivemos hoje. Somos importantes e não há quem ou o que substitua o trabalho do jornalista. Temos de continuar utilizando a reportagem como forma de nos comunicarmos com o mundo, mas, claro, falo das boas reportagens”, reflete Nodari.


 Mas aí voltamos ao ponto de partida, para garantir uma boa reportagem são necessárias boas condições de trabalho e para alcançar essas boas condições são necessárias mudanças estruturais nas relações entre patrões e jornalistas. Estão dados os desafios e não há respostas objetivas para suas resoluções. Mas para o diretor-presidente do SindijorPR, Gustavo Vidal, há três caminhos que, necessariamente, já devem ser percorridos ao mesmo tempo e com a mesma força:


 “Um deles, é a organização e luta dos trabalhadores jornalistas, só com unidade é que teremos força para enfrentar o que necessário para termos qualidade e estabilidade de trabalho e de vida, principalmente quando pensamos nos espaços que tradicionalmente os jornalistas vem ocupando, as grandes redações; e os sindicatos são um espaço para essa união. O outro é a luta pela democratização da mídia, para que possamos reformular os espaços de monopólio. E, por último e não menos importante, a necessidade de se reinventar, se reformular frente as mudanças tecnológicas, e também frente ao cenário de instabilidade nas grandes redações, criando novos coletivos e experiências jornalísticas. Os desafios são muitos, mas a comunicação de qualidade não perde sua importância”, finaliza Vidal.

Autor:Comunicação Sindijor-PR