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24/06/2014

O piso diferenciado e o retrocesso

O piso diferenciado e o retrocesso
Milton Simas é presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (*foto: Elson S. Pedroso)

Enquanto Sindicatos usam o exemplo do Paraná para lutar por piso unificado, os patrões paranaenses querem retroceder com uma proposta ridícula de diferenciar trabalhadores do interior e da capital


O desrespeito patronal não tem limites nem fronteiras. No Paraná, uma recente proposta vinda dos empresários da comunicação ressuscitou um defunto: a redução do piso. Sobre o tema, a posição dos trabalhadores foi unânime: REPÚDIO. O NÃO dos #jornalistasmobilizados foi geral e a 'sugestão' dos patrões voltou para cova. Em assembleias pelo estado, a categoria rechaçou qualquer diálogo relativo à diferenciação dos salários dos profissionais.


Há também outra questão: o retrocesso. O Paraná conquistou a unificação do piso com muita luta. E é com essa referência que outros estados buscam igualar o salário dos trabalhadores. No Rio Grande do Sul, estado com condições econômicas semelhantes ao Paraná, o piso é diferenciado. Como consequência, muitos jornalistas migram para outras regiões em busca de melhores condições, enquanto as empresas continuam lucrando.


Dos 399 municípios paranaenses, apenas 116 tinham jornalistas registrados, segundo dados da RAIS/MTE (2012) - Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego. Do total, 32 municípios com mais de 50 mil habilitantes concentravam quase 90% dos jornalistas paranaenses, sendo que nos cinco maiores municípios encontravam-se 70% dos jornalistas.


Já na questão econômica, entre 2004 e 2013, o faturamento dos meios de comunicação no Brasil aumentou 191%, enquanto a inflação do período foi de 69%. Isso significa que o faturamento aumentou 72% acima da inflação. Em contrapartida, os jornalistas tiveram um reajuste de apenas 70%, ou seja, apenas repuseram a inflação. Ainda segundo dados da RAIS, hoje 42,5% dos jornalistas brasileiros ganham menos de quatro salários mínimos.


Para retratar o que acontece onde o piso diferenciado é aplicado, o Sindijor conversou com Milton Simas, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul desde agosto do ano passado. “Os ganhos são os mesmos, e em certas localidades, até maiores, tendo em vista que muitas empresas atuam sozinhas em suas cidades e acabam monopolizando os investimentos publicitários”, Milton Siles Simas Junior.


Como está a campanha salarial para os jornalistas gaúchos?


Milton Simas:A campanha de 2013 se encerrou apenas em fevereiro de 2014. Numa luta muito intensa e desigual, tendo em vista a intransigência patronal, que insistia em não valorizar os jornalistas gaúchos. No final, avalio que fechamos um bom acordo, mesmo sem ter conquistado aumento real para os colegas que ganham acima do piso. Além do INPC para todos, de 6,95, arrancamos mais 1% de aumento real na capital e 2% no Interior. Com os reajustes, os pisos estão em 1.825,53 na Capital e 1.554,52 no Interior. Para 2014 acertamos em começar nossa campanha mais cedo, em função da Copa do Mundo. Fechamos a pauta em março e protocolamos ainda no início de abril. Porém, mais uma vez a patronal fez descaso e marcou a primeira reunião apenas para o mês de junho. Neste ano, atendendo uma reivindicação da categoria, já comunicamos à Justiça em caso de decidirmos ajuizar dissídio.


Hoje o piso diferenciado é aplicado no RS. Qual a posição do sindicato gaúcho sobre essa questão?


MS:Sim, no RS tem pisos para a capital e o interior. Somos contra, pois em nossa opinião, não existe menor cobrança aos jornalistas que trabalham no interior. A exigência por qualidade e precisão do trabalho é igual.


Considera justa essa diferenciação?


MS:Claro que não. Nossos colegas de Santa Maria, Caxias do Sul, Pelotas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Passo Fundo, Erechim, Bagé, Bento Gonçalves e Santa Cruz têm realidade muito igual à capital. Todas as cidades têm jornais diários, rádios ou sucursais de televisão com produção diária. Não há razão para diferenciação.


As empresas de comunicação alegam diferenças econômicas entre regiões para aplicar o piso diferenciado. Até que ponto isso se confirma na realidade dos jornalistas gaúchos?


Esta é uma desculpa que ouvimos há muito tempo. Claro, sabemos das diferenças econômicas, mas os preços dos anúncios não são diferenciados em razão do perfil econômico de cada cidade. Os ganhos são os mesmos, e em certas localidades, até maiores, tendo em vista que muitas empresas atuam sozinhas em suas cidades e acabam monopolizando os investimentos publicitários.


Qual o reflexo dessa diferenciação na categoria? Acredita que isso também diferencie o profissional do interior para o da capital? Isso não gera um problema de fragmentação dos trabalhadores?


Os colegas do interior se sentem, em algumas vezes, desvalorizados e cobram uma posição mais dura do Sindicato na mesa de negociação. No ano passado tentamos enquadrar as maiores cidades no piso da capital, mas não avançamos. A pauta volta em 2014. Muitos colegas acabam migrando para outras regiões em busca de melhores oportunidades. Não creio em fragmentação da categoria.


Então houve realmente migração de trabalhadores do interior para a capital em busca de melhores condições financeiras?


MS:Sim, isto sempre ocorre. Creio que não seja privilégio do RS por pagar salários diferentes na capital e no interior, mas nas principais capitais do Brasil. Muitos colegas deixam o RS e rumam para Florianópolis, por exemplo.


Uma das lutas do Sindicato gaúcho é pelo piso unificado, nos moldes como é no Paraná, por quê?


MS:Reivindicamos o piso do Paraná por ser um dos melhores do país. Mas também levamos em conta a semelhança entre as economias gaúcha e a paranaense. O DIEESE inclusive fez um estudo comparativo entre os dois estados. Entendemos que o RS tem condições de pagar o piso que é praticado no Paraná. Mas em razão da diferença, é um longo caminho para que possamos chegar a uma igualdade. Mas não vamos desistir da luta.


O piso unificado seria um avanço para os jornalistas gaúchos?


MS:Com certeza, todos seriam valorizados igualmente. Também seria uma forma de justiça aos colegas do interior. Para você ter uma ideia, jornais situados no interior, vendem jornais em Porto Alegre, mas pagam o piso do interior. Isto é um abuso.

Autor:Regis Luís Cardoso Fonte:SindijorPR